sábado, 3 de março de 2012
Fisicamente estava ali, debaixo daquele pé de algaroba, mas seus pensamentos iam longe, além daquelas nuvens que salpicavam o céu de laranja e branco. O curioso é que, quanto mais ele se distanciava em seus pensamentos, mais próximo de si estava. Assistia com angústia desesperada o filme dos seus sentimentos, como se eles passassem ali, numa tela imaginária, no lugar daquele horizonte tão belo que ele parecia desprezar.
Era um homem simples, mas longe de ser simplório. Sempre fora um sujeito vibrante, daqueles que contagiam os que lhe rodeiam pelo viço de sua personalidade, pelo brilho de sua pessoa e do seu olhar, estava sempre entusiamado com qualquer coisa. De repente se sentia morto, como se tivesse desistido de si mesmo, tudo era frio, opaco e agoado. Há muito deixara de crer no que dizia aos outros, no que dizia à si mesmo... Já não mais cria na própria capacidade, de sorte que as forças lhe esvaíram e não lhe restara mais ânimo nem mesmo para perseguir antigos objetivos, manchados pelo lodo do desprezo. Questões que outrora ensejavam debates com os quais se empenhava a ferro e fogo em defender o seu ponto de vista, hoje, ao se deparar com uma dessas, dava de ombros e seguia a passos largos pela calçada da estrada empoeirada da indiferença.
Lembrou-se com desgosto do que havia pensado durante o almoço, quando a mulher que trabalhava na sua casa serviu a mesa e sentiu certa inveja. Sorte das pessoas mais simples, que não têm que enfrentar os conflitos existenciais. Gostava de imaginá-los como fardos de tijolos de cristais, pesados, difíceis de serem carregados e frágeis ao ponto de se estilhaçarem ao menor dos impactos.
Pensou tudo isso em uma fração de segundos, epifania de uma razão que agora já não mais fazia sentido. Ouviu o último badalo, soltou um suspiro resignado, desceu a rua e se afastou da algarobeira e de si mesmo, deixando para tras razão, paixão, sonhos e lembranças. Agora, nada mais importava.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Tá Phoda, Mermão! (TPM)
O motivo que me faz debruçar sobre esse amontoado de rascunhos novamente e sair do ostracismo – sono dos justos e cansados de guerra - é dos mais sérios da vida moderna: A tal da TPM. O dia então não poderia ser mais apropriado, justamente no dia internacional da mulher (agora é novidade, tudo tem que ser exclusividade feminina, já não basta a lei Maria da Penha).
Segundo o wikipédia, que ensina a nós todos, TPM é a retenção de algumas substâncias (principalmente água e sódio) que alteram o funcionamento do metabolismo. Peraê, mermão! Alteração química do metabolismo e consequentemente comportamental? Isso não é nenhuma novidade para nós. Ora, isso é um fenômeno também frequentemente observado nos homens: embreaguez. A marmanjada está cansada de saber.
O grande xis da questão, onde está o coringa do baralho, é que a mulher de TPM pode tudo. Em alguns países desenvolvidos, a TPM passou a ser utilizada como defesa ou circunstância atenuante de pena, pois quem é acometida de TPM, fica demasiadamente sensível e essa sensibilidade exacerbada pode alterar o poder de discernimento da mulher. É o que diz o Doutor Guilherme Rôla, autor de "Tensão pré-menstrual como circunstância de diminuição de pena". (Pra quem quiser ler, link do jurista tão bem nomeado: http://www.eunanet.net/beth/news/topicos/informativo10.htm)
Ora, mas que diabos! Toma cachaça que tu vais ver o que é alterar o poder de discernimento! Se a mulher mata o marido treloso e alega que estava sob os efeitos da TPM, com um bom advogado e uma psiquiatra perita sapatão, daquelas bem feministas, é capaz de ser inocentada, e, além disso, condenar ao defunto a ficar recluso 30 anos no seu caixão, sem poder sair dele, aquele malvado!
Já o boêmio que toma o seu cafezinho no botequinho da esquina, chega em casa e se depara com a mulher e o buliçoso - e, dominado por fortes emoções, faz cessar de existir sua amada e ingrata esposa e o rapaz que mexia no que era dos outros - é um bêbado covarde, estava bebendo para tomar coragem e dar cabo aos pombinhos adúlteros. A conseqüência disso?! Vai ter sua pena agravada e ainda vai ficar conhecido como corno frouxo no sindicato dos cachaceiros.
Pois é, agora é moda essa permissibilidade exagerada. Está certo que se deve existir uma certa tolerância, uma margem de compreensão maior, mas, como diria o brilhante André Andrade, vulgo Macaco: “Tudo dimai é munto”.
sábado, 5 de setembro de 2009
Dias...
Ele pensou que havia beleza nos dias azuis de nuvens ausentes, sol reluzente e águas claras, mas nem de longe se equiparava ao charme bucólico dos dias cinzentos, mar revolto e brisa úmida. Hoje era certamente um desses. Dias que não revelam que horas são, nem a estação do ano em que estamos, que nos envolve em nevoeiros, onde se raramente vislumbra além dos horizontes turvos. Dias misteriosos.
Do alto daquela falésia, sentado em um tronco retorcido do que fora em outros tempos um imponente carvalho, ele se atirou em pensamentos. Adorava aqueles dias convidativos, contemplativos, introspectivos. Quase podia sentir no palato o gosto deles. "A despeito da pouca visibilidade, é quando se enxerga melhor, pois aprende-se a confiar mais nos demais sentidos." pensava o rapaz.
Lembrava-se de quando era mais velho, do que lhe fora prometido em dias fulgurantes de verão, da esperança de tudo ser azul, lembrava das perspectivas frustradas, de pássaros cantando sonhos alegremente, onde tudo parece possível, onde tudo parece tão fácil e feliz. A chuva lavou alguns erros dos seus ombros, levou consigo alguns anos que lhe pesavam e semeou novos projetos, dessa vez menos impetuosos.
Não restava mais espaço para ser amargo, mas não podia deixar de sentir a melancolia daqueles dias cinzentos, dias que não revelam que horas são, nem a estação do ano em que estamos, que nos envolve em nevoeiros, onde se raramente vislumbra além dos horizontes turvos. Dias misteriosos.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Outono
Quando os dias de primavera e verão decidem abandonar a vida, levando consigo todo o colorido, para então deixar o alaranjado em ocres de tristeza e melancolia.
Quando perder a derradeira folha parece ser a única coisa a se fazer para enfrentar as torrentes turbulentas, precedentes das tempestades de um inverno que já espreita por detrás dos montes.
Quando o horizonte estampa a fúria das nuvens que se avizinham, portadoras das mais pesadas trevas, raios que parecem querer partir os céus e a terra, trovões que retumbam consoante a todo o resto.
Embaixo daquela árvore, tão iguais as demais, tão singular para mim, lembrava amargamente de como tinha sido aquele parque há alguns meses e recordava o que me disse um velho amigo de olhos tristes: "Caem as folhas da razão, maldito outono de saudades." Veio imediatamente à minha cabeça outros tempos, quando o presente não se fazia imperioso e o futuro ainda era futuro... Saudades do futuro.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
1º - O boêmio ama a noite sobre todas as coisas;
2º - O boêmio ama o próximo mais do que a si próprio;
3º - Para o boêmio, a mulher do próximo é a mais distante;
4º - O boêmio não briga;
5º - O boêmio transforma suas ex-namoradas em grandes e solidárias amigas;
6º - O boêmio vive como gosta;
7º - O boêmio está sempre duro. Deixa pendurada mas paga a conta para não perder o crédito
8º - O boêmio não se embriaga. Tira mais da bebida do que a bebida do boêmio;
9º - O boêmio bebe por prazer e come por obrigação;
10º -O boêmio é versado em muitos assuntos, mas não consegue falar sobre a vida alheia.
UM BRINDE!!
segunda-feira, 17 de março de 2008
Tudo Azul.
Mas eu era jovem e paguei caríssimo pela minha inexperiência. Não sabia como alimentar aquilo, tampouco cuidava com o zelo necessário, me inebriando no brilho intenso, que, se não tomasse cuidado, era capaz de cegar. E cegou.
O Azul começou a turvar, ser poluído por situações que antes nada significavam, mas que agora faziam toda a diferença. Não perdeu em intensidade, ainda era muito azul, entretanto, mudou em sua tonalidade. Deixou de ser claro para se tornar de um ultramar tão forte que chegava a afogar na sua escuridão.
Eu tinha ciúme de todos os que eram tocados pelos raios, e se antes o azul preenchia apenas os vazios e brechas, agora havia me tomado por completo. Azul Royal, altivo, majestoso, absoluto. Azul Imperial, pela forma autoritária que se impunha, conforme agravava-se o quadro, digno do mais confuso e passional Van Gogh. Tinha eu envenenado a coisa mais bela que me acontecera e, suicida, bebi daquela fonte com plenitude. Havia poluído o azul e me intoxicado de tanto me saciar dele.
Deixou de ser algo alegre, que me completava e abrilhantava meus dias para então me consumir intensamente o tempo todo, integralmente. E eu vivia o azul angústia com tanta sofreguidão que qualquer que fosse tocado pelos seus raios, tentáculos de água-viva, sentia-se angustiado.
Num sonho, um ancião me disse: Filho, presta atenção... te deixastes deslumbrar e o deslumbre é a mão enevoada do ópio que te arrasta para a tua própria ruína, o abismo mais sombrio, não vês?
Sobe no cume daquela montanha e passa uns tempos na agradável companhia de ti mesmo e aí obterás a resposta que procuras. Larga deste azul que te abraça como fazem os ursos. Escuta o que tu tens a te dizer, dá ouvido à tua razão e ela te dirá o que fazer. Desfruta de ti mesmo.
Segui o conselho e subi. Fiquei surpreendido em notar que esse tempo inteiro o silêncio me gritava, mas eu estava tomado demais para ouvir. Notei que haviam pichado a minha sala de estar a lista dos dez mandamentos das táboas de Moisés da solução dos meus problemas, mas eu estava cego demais para ver. A mensagem era simples: Deixa-o, outros azuis verás, mas agora sê devoto de ti mesmo e isso deve te bastar.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Crônica Anacrônica.
Eis que a civilização - sioux ou turca, ocidental ou oriental, moderna ou antiga - precisa dessa invenção. A medida varia... Segundos, minutos, dias, luas... E por aí vai. O fato é que independente da métrica usada, a sabida invenção nos é, se não indispensável, no mínimo útil. Não tem outro jeito de dizer isso, nada mais precioso que o tempo em tempos como esse, certo?
Tende-se a ver bidimensionalmente, digo, tempo x espaço. É a velha história do: "Era uma vez, há muito tempo atrás, um lugar chamado..."Não entro na questão espacial agora, deixo a oportunidade para, talvez, tratar do assunto com mais minúcia e zelo posteriormente, se tiver tempo, é claro.
Enfim, que é tempo senão a régua que inventamos para medir nossa história? Já percebeu que o sol está lá em cima desde sempre e à ele não interessa o seu horário de almoço, ou mesmo quanto tempo faz desde que a maldita Bastilha foi tomada? Que determinadas situações passam voando e outras se arrastam, para depois de uma eternidade, se consumarem, devorando apenas alguns segundos? Que dizer daquela moça bonita que te fita os olhos, ainda que de relance? Certamente perdurou mais na memória que todo um expediente teimoso e infindável de labuta enfadonha.
Certamente, pelo menos para mim, este bacana que vos escreve, é impossível imaginar a desconstrução do tempo na vida coletiva, ao passo que no âmbito individual é só uma questão de costume. É aí que está o curinga do baralho, neguinho, believe me.
Você deve estar achando que perdeu tempo lendo a ladainha de mais um cabeção pouco original que se julga o doutor da Sorbonne, fazendo resenha barata sobre o tema mais batido no mundo, carpe diem... Bem, isso aqui não é nenhuma apologia à irresponsabilidade desesperada e desenfreada. O tempo é uma invenção útil que deveria nos servir, e não nos escravizar. Devora o tempo ou sê devorado por ele. A escolha é sua. Particularmente, prefiro saborear meus momentos.
